12 Dez 2020 a 23 Jan 2021

Claudio Valério Teixeira - Aquarelas da Quarentena

E assim passam os dias – aquarelas da quarentena
Ana Cavalcanti           

Claudio Valério Teixeira nos presenteia com uma série de mais de 60 aquarelas realizadas durante os meses em que o mundo parou. Paisagens, naturezas-mortas, autorretratos, cenas do interior do ateliê, pinturas de nus, estudos de mãos, são alguns dos diversos gêneros presentes nesses trabalhos. Até mesmo uma cena de luta vista na televisão, ou “Vaquinha”, a simpática vira-lata em descanso, foram registradas por ele. O que motivou essa intensa e variada produção está explícito no nome da série: “Aquarelas da quarentena”.

Vivemos um tempo histórico. De 2020, jamais nos esqueceremos. Esse ano se tornou um divisor de águas. Ficou no passado o tempo em que a vida seguia seu rumo sem que nos perguntássemos qual o sentido de nossas escolhas cotidianas. Isolados na quarentena, fomos obrigados a pausar o ritmo muitas vezes frenético em que vivíamos. “Pare e pense” parece nos dizer a placa de trânsito que se entrevê entre os Mamoeiros pintados em 17 de junho. O portão fechado para a rua, na aquarela de 7 de abril, já nos indicava o limite: “não passe daqui”. Memento mori, autorretrato de 2 de agosto é um alerta. A morte espreita e nos assusta. Sim, todos sabemos que um dia vamos morrer. Mas um vírus está lá fora e agora o risco se torna palpável. Cuidado, lave as mãos! O gesto se repete nos trabalhos de 7 de abril e 2 de junho. A máscara se torna parte do rosto no autorretrato múltiplo Así pasan los dias, así pasan las horas, lembrando-nos que o tempo não para, enquanto esperamos a notícia de uma vacina ou remédio que nos devolvam a “normalidade”. Nas aquarelas, as folhas de jornais diários são presença constante ao lado das flores e frutas nas naturezas-mortas. Um dia após o outro, o cotidiano é registrado nas pinturas com datas precisas, por vezes com indicação da hora em que foram feitas.

Estamos conscientes desse tempo excepcional. O que nos resta fazer agora? Olhar em volta. Ver os detalhes do mundo no qual vivemos, a beleza nas pequenas coisas que nos rodeiam. Thania dormindo, 19 de abril: que alegria esse amor cotidiano, a intimidade partilhada, o corpo entregue às cores da colcha. Thania na piscina, 26 de abril: o corpo agora flutua no azul que se transforma em verdes, em brilho, em luz. Banho de sol: o calor na nudez livre de amarras se desdobra em três momentos de abril... maio… Os meses se sucedem, e voltamos ao essencial.

A arte está em toda parte, a começar pelas naturezas-mortas que se multiplicam: Ah! Eu quero ser Cézanne, Flores para Guignard, Pigmentos de Portinari. Também está no Morro de Santo Inácio, tradução da montanha Sainte-Victoire para Claudio Valério. Experimentar azuis, vermelhos, verdes e lilases. Frutas, flores, ou mesmo o lixo são sinfonias de cores e formas para quem dorme e acorda com Cézanne, Courbet, Picasso, com Volpi, Iberê, Castagneto ou Vieira da Silva. Diálogos que começaram cedo na vida de Claudio Valério Teixeira, filho de Oswaldo Teixeira, irmão de outros artistas, restaurador e pintor, frequentador de museus e exposições, rodeado por obras de arte, livros de arte, artistas e amadores da arte desde pequeno. Não é à toa que as homenagens surgem, pois “visitantes” ilustres se sucedem no ateliê. Chegam para ter suas obras restauradas, o viço reconquistado. O trabalho do restaurador também alimenta o espírito do artista. Na observação continuada e atentíssima às obras dos pares, forma-se uma comunidade de artistas que une os de hoje aos de outrora, sem fronteiras temporais. Um autorretrato d’après Courbet, outro com a “camisa de Picasso”, e Claudio se transforma nos pintores que admira. E no mais, é a paisagem da proximidade vista através da janela, os vasos de plantas, as folhagens das árvores, os fios da luz elétrica e os postes na rua, os telhados das casas vizinhas, caixas d’água. Todo detalhe é captado, o mundo traduzido em pinceladas coloridas, drippings e outras técnicas curiosas.

Uma fuga rápida para Visconde de Mauá, e a estrada, o bananal, a horta e a laranjeira, o galinheiro e o tronco caído entram na roda da vida que se festeja.

Pois o mergulho nessas aquarelas da quarentena é revigorante. Dele saímos com a sensação de uma vida cheia de arte e de uma arte cheia de vida – o dia a dia de Claudio Valério Teixeira.            

A paisagem possível
Luiz Carlos Lacerda.

 

Não é incomum, em períodos sombrios nas vidas de grandes artistas, isolados por razões involuntárias, a produção de importantes e belas  obras. Assim foi como Miguel de Cervantes, no sec. XVI, escreveu o clássico da literatura universal D. Quixote de La Mancha; o Marquês de Sade, no século seguinte, produziu quase toda a sua obra; Oscar Wilde o sofrido poema De Profundis; Dostoievski o Recordações da casa do mortos, escritos em fins do sec. XIX, assim como o nosso Graciliano Ramos com Memórias do cárcere, já no sec. XX.

 

Não foi na prisão que o pintor Cláudio Valério Teixeira deixa seu testemunho,  mas a de  sua experiência  de artista  diante da emergência de uma quarentena provocada por uma peste planetária.

 

Limitado ao universo quotidiano de sua casa, ele registra tudo aquilo que o cerca. Desde as naturezas-mortas espontaneamente deixadas sobre a mesa do café da manhã, sem a pretensão dos arranjos encontrados nas pinturas dos barrocos holandeses do sec. XVII, ou do modernista italiano Giorgio Morandi  e seu discreto equilíbrio dos elementos, ou das collages matemáticas do gaúcho Carlos Scliar, mixando partituras musicais, arcos de violinos, com frutas brasileiras ou letras do alfabeto. Essas pinturas de Cláudio Valério refletem a desordem do transe dos dias que vivemos, onde papayas semi embrulhados por jornais insinuam o desejo da notícia de um resgate salvador. Há nelas, a serenidade que só o conformismo próprio da maturidade justifica.

 

Como numa decupagem cinematográfica, seu campo de visão vai se utilizando de lentes mais abertas, inconformado com o limite da mesa – e passa a registrar o atelier do artista, com homenagens que visitam desde Monet, a Picasso e ao Volpi com suas cores suaves e calmantes. Como se se permitisse convidá-los a entrarem com ele, solidários, nesses reduzidos e claustrofóbicos momentos. Mas que não o assustam. Levam-no ao sol, o casal desnudo num paraíso particular às vésperas de inaugurar alguma coisa nova ou surpreendente, deitado nas espreguiçadeiras de seu pátio domiciliar, ele pinta aquilo que a vista de suas janelas permite alcançar: a árvore, os muros da vizinhança. Mas isso não lhe basta, cautelosamente viaja para uma casa no campo, novamente documenta o seu entorno, passeia seu olhar pelas cercas vivas, alcança a que divide o terreno que lhe cabe, o tronco deixado, displicente, caído no caminho.

Tudo isso, através de aquarelas que denunciam a sua formação acadêmica – e o seu talento de restaurador, como se pedisse emprestado ao Volpi que o visitara, a delicadeza dessas cores que só a aquarela é capaz de tingir aquilo que é objeto de sua eleição.

 

Mas não mascara – em tempos de máscaras e prevenção – a tragédia dos dias que vivemos. Como num grito desesperado de um Munch contemporâneo, reproduz a própria face, transmutada em expressões variadas do desespero e do medo. Que é o medo de todos nós. Com Beleza e perplexidade.